Conto Se foi embora
SE FOI EMBORA
Conto para concurso
AUTOR: Pierre
Uma das coisas que caracterizam o céu carioca, sobre tudo durante as épocas de férias escolares, é a infinidade de pipas que cobrem o espaço entre trinta e cinqüenta metros da terra e imprimem à paisagem, com as suas danças laterais e o múltiplo colorido, um ar de alegria e festividade. Quando unimos vários num mesmo campo visual, elas desenham as mais variadas figuras cinéticas que despertam o interesse até dos menos adeptos a este tipo de distração.
Lamentavelmente hoje as pipas perderam muito em variedade, sendo difícil encontrar um coronel ou outra forma das que antigamente fabricavam-se. Lembro-me que o tipo mais comum entre os meninos bem pobres era a “chiringa”, que se fazia só com uma folha de papel pregado, sem as travessas de madeira, e puxada por uma linha de costura que pegavam da gaveta da mãe ou da avó. Hoje o desenho reduziu-se a um só tipo, talvez por ser o mais econômico e que empina melhor, e os tamanhos variam pouco. Será que a pipa converteu-se em outra mercadoria estandardizada do mundo globalizado? Por sorte conservam o colorido vivo, com matizes puros característicos de uma cultura influenciada pela luminosidade cromática que produz a intensa força de um sol sempre radiante. No sul existe ainda a pandorga, maior e só para colocar no ar, e pode ser bomba, estrela, caixas ou de outros tipos. Em Niterói existe a califa, também conhecida como raia, que não tem rabiola. Bandeiras do Brasil ou das equipes de futebol, personagens dos desenhos animados mais famosos – já nada brasileiros – e outros temas são alegorias que cobrem a superfície de papel daquelas simples estruturas que dançam mais lentas ou dinâmicas, segundo a vontade e a resistência de seus donos temporais, pois a pipa, para sorte de seus fabricantes, e o prejuízo do bolso dos pais, tem uma vida efêmera. Houve um tempo em que até mandavam-se mensagens nas pipas, colocando na linha um pequeno pedaço de papel com um buraquinho no meio e este ia subindo, subindo até chegar lá encima. Em outros lugares eram utilizadas para levar a linha de pescar até o ponto desejado, onde a profundidade da água era maior. Depois se começaram a inventar artifícios para cortar uns aos outros, como as lâminas de barbear, vidro moído e outros menos perigosos como o cerol com vidro moído.
Longe de ser uma brincadeira de crianças, soltar pipa, é aqui um entretenimento de todas as idades. Alguns pais começam ajudando aos filhos para levantar aquela leve estrutura de varinhas de madeira e papel e acabam passando horas embaixo do sol, brincando, gritando e até brigando toda vez que uma linha é cortada por outra e a pipa vai-se embora. Porque agora a maior diversão e alegria da brincadeira é quando isto acontece, e o mais rápido e astuto apodera-se da pipa, retornando triunfante com a presa em alto. Claro que a inocente distração pode trazer certas complicações, algumas das quais podem ser perigosas. A mais comum é quando o que perdeu a pipa não fica conformado e sai a recuperá-la, o que não poucas vezes termina numa rinha que em ocasiões transcende o âmbito dos menores. Outra situação complicada se produz quando a pipa que foi cortada vai parar numa antena, numa árvore ou no teto da casa de um vizinho, o que geralmente provoca que este se incomode com os métodos e a persistência dos menores para recuperar o objeto voador. Porque o hábito mais comum é lançar pedras amarradas a uma linha, o que pode – e de fato acontece – quebrar o vidro de uma janela, ou quando no mínimo o dano é levantar um galo na cabeça de quem esteja distraído andando pelo lugar. Comumente ocorre que se enredam nos fios do tendido elétrico e aqui as formas de pegá-lo são de maior risco. Uma delas é amarrar os cadarços dos tênis e jogá-los na linha entre a pipa e o fio que às vezes é de alta tensão. Em outras oportunidades trata-se de tendidos velhos que terminam arrebentando, podendo provocar um acidente maior, ou no melhor dos casos a interrupção do fluido elétrico por um bom tempo. Outro momento de alto risco se produz no instante mesmo em que se corta a linha da pipa e este empreende seus vôos livres, tranqüilos e harmoniosos, sem as marras pelas que lhe dão as violentas sacudidas e se deixa levar pelas carícias dos ventos. É ali em que todos, sem exceção, sem pensar em nada nem mirar para ambos lados da rua como a prudência aconselha, saem disparados na provável direção de destino. Quase sempre correm descalços, pulam altos muros, jogam-se de coberturas e lajes e atravessam-se diante dos carros que muitas vezes não respeitam a velocidade permitida nas zonas residenciais.
De qualquer forma brincar de pipa é uma diversão irresistível, sobre tudo nos bairros mais pobres, onde não existem mais opções para empregar o tempo livre nessa idade indefinida dos pipeiros, que passa pela infância, segue na adolescência e parece não terminar nunca. Porque se uma coisa linda produzem as pipas é o sentimento de alegria, de realização dos sonhos, que experimenta uma criança quando sente entre seus dedos a fina corda que o separa daquele simples objeto que sobe como animado, querendo alcançar o céu com suas nuvens e estrelas, ficando diminuto com a distância na imensidade celestial. Mais esta sensação parece que não termina com o passar dos anos. Para muitas mães constitui um alivio, na medida em que seus filhos entregam-se dia a dia e a toda hora a esta atividade, escapando assim das tentações perante formas ilícitas e perigosas de empregar o tempo. Outras reclamam de que as crianças não querem nem trazer o pão, tomar banho ou ingerir alimentos.
Brincar de pipa dentro de uma favela já requer de outras condições físicas e mentais, como de certa vocação felina para pular entre as irregulares coberturas a diferentes alturas, salvar paredes sem terminar, muros e colunas com os vergalhões de fora, e falta de espaço geral, entre outras inconveniências. Isto é sem contar que as instalações elétricas conformam verdadeiras enredadeiras de precários fios que só um mago saberia de onde vem e para onde vão. Talvez por isso a modalidade mais cômoda, de menos risco para quem a pratica, e mais tentadora por ser proibida, seja soltar o balão de fogo, digamos uma variante propulsada da clássica pipa. Mesmo assim, como a rádio não foi eliminada pela televisão, a pipa correu a mesma sorte e continua proporcionando alguns centavos de ganância aos que unem a paciência com habilidade manual para armar aqueles milenares engenhos chineses, de cuja fanática manipulação não escapa nenhuma criança.
Era com uma enorme frustração que Miguel, tímido mulatinho de seis anos, via todos os dias a seus dois irmãos maiores e a seus colegas passar as horas correndo sobre as lajes detrás das pipas que iam embora. Só houve um dia em que um deles, que por casualidade estava sozinho nesse momento, e pediu para que o ajudasse, caminhando uns metros a sua frente com a pipa em alto e a soltasse para ele colocá-la a voar. Também, por padecer Miguel de bronquite crônica, a mãe o mantinha mais dentro de casa, sobre tudo nos momentos em que ela saía a realizar alguma compra, pois seu marido pedreiro só voltava pela noite. Quando isto último ocorria, então ele aproveitava para correr pelos corredores, brincar de bolas de gude com seus colegas, ou fazer alguma travessura como esconder a vassoura de uma vizinha, sujar a roupa do varal ou amarrar uma lata no rabo de um gato.
Essa manhã seus objetivos eram outros. No dia anterior havia escutado quando os irmãos combinaram para ir a jogar futebol, o que significava que eles permaneceriam um bom tempo fora de casa. Por sua parte Rita, a sua mãe, tinha reservado turno para a manicura, porque mesmo pobre era uma linda e orgulhosa mulata que não descuidava o seu aspecto físico. De forma que Miguel elaborou um plano perfeito para realizar seu sonho: soltar pipa.
Com a maior cautela possível esperou a que todos saíssem, fazendo-se de dormido. Depois não quis nem tomar café com pão e manteiga que a mãe, preocupada com que os outros comessem tudo, deixou preparado para ele, e escondeu no lugar combinado. Quando a porta fechou-se por última vez espiou pela janela e ao ver que estava livre se dispôs a preparar as coisas, esquecendo-se até de lavar o rosto e escovar os dentes. Das três pipas que os irmãos tinham deixado cuidadosamente penduradas na parede, tomou a que tinha o desenho do homem aranha, ídolo das crianças sobre tudo pela forma em que realiza suas piruetas pelas paredes e telhados dos altos edifícios newyorkinos. A pipa estava completa, com suficiente rabo e uma grande quantidade de linha enrolada em uma lata vazia de leite em pó que lhe permitiria elevar a mais de duzentos metros e talvez, por que não, cortar alguma outra que estivesse no ar. Sem pensar duas vezes saiu pela porta da cozinha e subiu pela janela do banheiro até o teto, como habitualmente faziam seus irmãos. Uma vez lá ficou um pouco pensativo, pois não considerou o lugar apropriado, já que as duas casas vizinhas eram mais altas. Finalmente decidiu subir por um cano de esgoto ao teto de uma delas, que estava em construção. Agora sim estava no lugar certo, pelo que sorriu levemente e completou sua expressão de alegria quando sentiu o vento soprar forte naquela linda manhã de sol radiante. Não precisou ajuda para colocar a pipa no ar. Só desenredou o rabo, soltou um pouco de linha e como num simples ato de magia a pipa foi subindo, subindo até consumir toda a linha. Bailava no céu como nenhum outro, com a arrogância do rei dos ventos, com ar do príncipe de uma linda fábula, com a serenidade de um astro bem próximo das nuvens. Miguel era feliz. Estava realizando seu mais prezado sonho. Não queria nem movimentar muito a linha de um lado para outro para cambiar a direção dela. Só queria vê-la voar, no entanto mantinha em suas miúdas mãos a linha que o fazia se sentir seu dono, mesmo que fosse por uns momentos. Duas curtas lágrimas de alegria e emoção correram por suas bochechas, e no lindo rosto se esboçava um amplo e esplêndido sorriso infantil. Tinha vontade de gritar, de chamar a seus amigos, de mostrar o seu heroísmo, mais preferiu calar e desfrutar sozinho aquele momento de tanta euforia, no qual talvez as palavras não tivessem saído de seus lábios. E a pipa voava, com a sua rítmica e silenciosa dança ao compasso do vento, com a harmonia que só a natureza sabe imprimir a esse fenômeno de rotina. Sem percebê-lo outra pipa foi ficando mais perto por detrás dele e quando menos o pensava o rabo do cruel invasor interceptou a linha do seu, fazendo com que a pipa fosse embora.
Primeiro foi à carga de ódio, de raiva, ao compreender o ocorrido. Em frações de segundo apareceu a segunda reação: correr atrás dela. Só deu três compridos passos sobre a laje e esta chegou ao fim. Miguel não teve tempo de gritar. Três horas depois os vizinhos acharam o pequeno corpo atravessado por um vergalhão que saía de uma coluna a seis metros de onde ele caiu.
Escrito por alexei.pierre às 07h49
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