Alexei Dumpierre
Sou Jornalista e escritor cubano exiliado no Brasil. Na minha pagina no ORKUT (alexei.pierre@gmail.com) podem ver o meu perfil e minha obra. Aqui apresento partes dela como contos e capítulos de meus livros
Escrito por alexei.pierre às 22h33
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Problemas econômicos (segunda parte)
Para se ter uma idéia da prepotência do máximo líder da Revolução Cubana, trabalhando eu no telejornalismo na ilha, um terremoto de considerável intensidade sacudiu a região oriental do país. Imediatamente mandei uma jornalista a cobrir a notícia, indicando que era conveniente entrevistar ao chefe dos Serviços de Prevenção e controle Sismológico da Academia de Ciências, para tranqüilizar a população sobre a possibilidade de acontecerem outros fenômenos similares nas próximas horas. No momento da entrevista Fidel Castro estava no lugar e ante a pergunta formulada pela jornalista, ele começou a dar uma explicação técnica do que poderia acontecer, no lugar de passar a pergunta para especialista e se limitar a informar, as medidas que tomaria o Governo no caso de ser necessário. Mas ele não consegue ter essa modéstia, esse senso para compreender até aonde devem chegar suas atribuições. Esta prática, no caso da economia, tem custado muito caro ao país.
Dois casos concretos foram, as sorveterias e os fruticuba. No primeiro, Fidel teve a generosa idéia de que todo o povo deveria ter direito a saborear um gostoso sorvete perto de sua casa. Então decidiu fazer uma sorveteria em cada bairro do país, para o qual mandou comprar na Argentina barracas metálicas pré-fabricadas e as geladeiras industriais para conservar o produto. Foram construídas instalações para que cada província elaborasse sorvetes de diferentes tipos e sabores. Na realidade o povo ficou muito contente e curtiu o novo serviço durante um ano aproximadamente, depois de cujo tempo perceberam que não contavam com suficiente matéria prima para manter a oferta como leite e frutas. Assim sendo, as sorveterias foram fechadas ou aproveitadas para outros fins até que apodreceram pelo abandono. A mesma história aconteceu com os fruticuba, nome dado a casas para vender diferentes pratos elaborados com frutas naturais, onde também se gastaram recursos na adaptação ou construção dos locais e a aquisição dos equipamentos para a elaboração dos produtos e a conservação da matéria prima. O tempo de sobrevivência foi o mesmo. Não por acaso o humorista cubano Hector Zumbado costumava dizer que o grande problema do socialismo era que não tinha fixador.
Outro grande problema surgido como conseqüência da política econômica errada seguida pelo governo foi o de criar uma diabólica e desproporcional infra-estrutura administrativa muito além das reais capacidades produtivas. Num surto de burocracia sem igual o socialismo, e especialmente o cubano, entregou-se a tarefa de implementar uma rede de órgãos de planejamento e controle da economia muito superior a suas necessidades. Assim foram criados, de forma paralela as instituições governamentais da administração, comitês estaduais de finanças, preços, e outros; Junta Central de Planejamento, Comitê Estadual de Colaboração Econômica, etc. Tudo isto, logicamente, implicava a estruturação de todo um aparelho burocrático insustentável. No final das contas nada aportava para a consolidação da economia, carente dos recursos fundamentais para o crescimento. A enorme burocracia gera despesas que não tinham amparo na produtividade, nem, em última instância, garantiam planejamentos e controles efetivos. Porque para evadir a excessiva e injustificada fiscalização surgiu um fenômeno típico do socialismo: o globo, que não é mais que o engano consciente sobre os resultados econômicos desde a base até os mais altos níveis do governo; a mentira disfarçada de triunfos dolosos que trazia como resultado as falsas expectativas e a desinformação que impossibilitava o correto planejamento sobre bases reais. Tomei consciência da gravidade deste fato um dia em que sendo Chefe dos Serviços Informativos da Televisão Cubana, um jornalista me trousse uma informação sobre a produção de café na zona oriental do país. Como a cifra me pareceu um pouco exagerada, me dediquei à tarefa de confirmar os dados, e contrapô-los ao resto da produção nacional. Qual não foi minha surpresa ao confirmar minha dúvida de que os resultados informados da produção só seriam possíveis num território três vezes superior ao da ilha inteira. Mas o governo fazia cálculos contando com o dinheiro que se obteria com a venda dessa inexata produção.
Realmente o processo de centralização da economia começou em 1967, quando o Governo desatou a chamada Ofensiva Revolucionária, que consistiu numa guerra declarada contra toda a produção privada. Nesse grande conceito defendido como medida para a erradicação total da propriedade privada, foram contempladas também as pequenas produções, até artesanais, que mesmo sem constituir linhas importantes da economia, resolviam necessidades elementares da população. Então foram fechadas ou intervindas pelo Estado desde pequenas fábricas de sapatos até um carrinho de cachorro quente. Para suprir a falta desses produtos, se criaram as empresas consolidadas de pão, de calçado, gastronômicas, etc, tudo isto com toda a burocracia que implica um projeto desse tipo a nível nacional. Quer dizer, o trabalhador independente que tirava ostras do mar e as vendia num copo com limão em qualquer esquina foi substituído por toda uma estrutura empresarial, que no final não garantiu a oferta do marisco à população, alias nunca mais consegui comer uma ostra.
Um outro aspecto que atentava contra a possibilidade de exercer um maior controle era o hermetismo ao que se fechou a economia como conseqüência do medo de facilitar informações para o inimigo, de forma que este pudesse sabotar o desenvolvimento do país. Então, como forma de manter a discrição, se implementou o Segredo Estadual, que consistia na mais absurda reserva por qualquer dado que pudesse parecer comprometedor. Foi a ocasião para esconder informações que colocariam em evidência os verdadeiros erros no planejamento, na produção e na emissão de relatórios carregados de mentiras. Muitos anos depois, quando se fez uma revisão do que verdadeiramente deveria ser classificado como informação restrita, confidencial e segredo de Estado, apareceram os absurdos cometidos em nome desse princípio.
Com países que o Governo Cubano propiciava intercâmbios aconteceram também certas dificuldades, pois às vezes os pagamentos eram feitos com produtos ou maquinarias que não eram necessários na ilha ou que na realidade eram obsoletos tecnologicamente. Aconteceu as vezes que tinham que aceitar-se retribuições que era necessário depois passar para frente de qualquer forma, mesmo com grande perda do suposto valor de custo.
Na realidade Cuba podia fazer transações comerciais com países capitalistas que com o tempo acederam a revitalizar as relações comerciais, e de fato em muitos casos se fez. O problema estava em que para isso eram necessárias divisas, e a principal produção que era a açucareira, estava comprometida com o campo socialista. Consciente disto, o Governo tomou a medida de procurar a entrada de divisas por outras vias, incluso através de diabólicos mecanismos criados de forma para governamental e que com o tempo trouxeram sérios problemas de corrupção dos funcionários envolvidos no esquema que incluía até contrabando de produtos e tráfico de drogas. Mas o centro do problema está na falta de uma produção capaz de garantir com sua venda os fundos necessários para respaldar as exportações, que com o tempo foram ficando mais necessárias, sobre tudo depois da queda da Rússia.
Com uma enorme potencialidade para a industria do níquel o país não conta com a infra-estrutura necessária para sua exploração, pois nunca foi considerado como um setor estratégico a desenvolver. A produção de energia nuclear, que poderia ter constituído uma considerável ajuda a economia nacional ficou paralisada no final da década de oitenta. A prospecção e extração de petróleo que segundo especialistas poderia ter resultados futuros não conta com os recursos imprescindíveis para sua efetivação. A indústria pesqueira também poderia acrescentar muito mais ao país se contasse com maiores investimentos. E o próprio turismo, que segundo a visão comercial de muitos grandes empresários norte-americanos poderia ser a maior fonte de ingressos da economia, encontra-se muito limitada pelo extremo controle e a falta de grandes investimentos que hoje só poderiam partir do capital privado.
Mas a realidade é que a economia cubana é hoje um fracasso consolidado, incapaz de satisfazer as necessidades elementares da população, e sem recursos para sair na frente sem o apoio financeiro externo. Isto significa que teria de ser feita uma verdadeira e radical reforma nos conceitos e nas políticas do Governo, intransigente ainda a procurar novas vias de apertura econômica a um mundo que não pode escapar do sistema capitalista imperante. Porque outro erro de concepção do líder cubano foi acreditar que podia crescer paralelo a essa realidade, sem ser beneficiado com seus êxitos nem prejudicado com suas crises como a atual, da qual não escapou ninguém. O terrível medo de ser penetrado pela ideologia capitalista, assim como pelos absurdos hábitos de consumo que essa sociedade gera, limitaram em muito a projeção econômica do país. Mesmo que seja triste e injusto não podemos evadir-nos da realidade de que o imperialismo, e sobre tudo sua cabeça que são os Estados Unidos, é quem da as cartas hoje neste desigual jogo que é a economia mundial. E infelizmente será assim ainda por um tempo não determinado, ou pelo menos, até não aparecer os perceptíveis resultados das mudanças que estão acontecendo com o florescimento de poderosas economias de países emergentes como China e Índia.
Temos então que fatores como o hermetismo, a intransigência e a improvisação, entre outros, causaram muitos mais danos na lesada economia da ilha que o próprio embargo imposto de forma irracional, o qual não podemos ignorar, mas também não considerá-lo a única nem a principal causa do desastre econômico do socialismo cubano.
Escrito por alexei.pierre às 21h17
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Parte do livro Cuba:50 Anos de Ditadura
PRINCIPAIS PROBLEMAS ECONÔMICOS
Antes de analisar os problemas econômicos em Cuba devemos fazer uma breve referência às dificuldades na implantação da economia socialista em sentido mais geral, claro sem pretender aprofundar que requerem ainda profundas pesquisas e debates por parte de especialistas.
Na prática o processo de instauração da economia socialista de distanciou grandemente da teoria elaborada por seus idealizadores no século anterior a posta em prática de suas idéias, num contexto sócio-político diferente ao concebido inicialmente. Assim a Rússia, que foi o primeiro país a implantar o novo esquema de produção, se deparou com condições objetivas e subjetivas diferentes as concebidas na idéia inicial, somando-se a isto as peculiaridades históricas e socioculturais específicas da nação mais atrasada da Europa. De forma que o poder dos soviets teve que adaptar a concepção teórica a realidade concreta do momento que vivia o país e a situação da economia mundial no princípio do século XX, período de franco crescimento do capitalismo. Portanto, os três primeiro problemas aos quais se enfrenta o novo sistema são a adaptação da nova teoria a prática num contesto diferente, a falta de experiências referenciais anteriores, e a concorrência desleal com outro sistema poderoso, nascido da evolução histórica do desenvolvimento das forças produtivas. Mas ante tudo, a essência do socialismo como sistema é o antídoto do capitalismo, e pressupõe a destruição do adversário para sua existência, o que implica um antagonismo total e sem limite. Isto se traduz em que desde seus primeiros momentos o novo sistema terá que, submeter-se a uma guerra devastadora, para a qual seu inimigo internacional não pouparia forças nem recursos, pois os dois sistemas não podiam conviver. Tudo isto sem contar a carência de pessoal qualificado para levar a frente tamanha tarefa, sendo que os poucos que tinham abandonaram o país, estimulados pelo inimigo.
As duas Guerras mundiais fortaleceram ao Bloco Socialista militar e territorialmente, mas debilitaram sua economia, no entanto a dos países que permaneceram longe da contenda continuou crescendo graças, entre outras coisas, da introdução dos avanços da ciência e a técnica. Esta poderosa razão distanciou muito o nível de desenvolvimento de ambas economias. Os países ocidentais conseguiram assim desenvolver tecnologias avançadas que permitiam levar ao mercado produtos de alta qualidade que superavam a competência com seus rivais, no entanto a URSS se empenhava na produção de indústrias com tecnologias mais atrasadas.
Por outro lado o sistema capitalista contava com dois recursos poderosíssimos para estimular a sua economia, que até hoje são suas principais armas, talvez subestimados pelo socialismo: o incentivo material e a propaganda efetiva.
Todos estes fatores, unidos à necessidade de investir enormes recursos na defesa e aos graves erros nas políticas internas cometidos pelos dirigentes do Partido Comunista Soviético, contribuíram ao fracasso desse sistema econômico que terminou sendo insustentável.
Pessoalmente participei da visita de Mijail Gorvachov a uma fábrica de monta-cargas. Após percorrer as instalações da indústria onde se produziam as grandes máquinas empilhadeiras, o dirigente do Soviet Supremo viu no pátio uma pequena máquina. Então perguntou o que era aquilo e recebeu a resposta de que se tratava de uma empilhadeira japonesa que utilizavam para carregar as enormes máquinas russas. Na hora mandou fechar a fábrica dizendo que só voltaria a funcionar no dia em que conseguissem produzir uma igual.
No entanto o fracasso do sistema econômico socialista não é um erro imputável só a Cuba, mas na ilha aconteceram coisas que agravaram a situação, independentemente do bloqueio dos Estados Unidos. Insisto nesta última idéia porque muitas pessoas repetem como papagaios que a situação econômica da ilha tem como causa principal o embargo econômico, o que é um erro, uma visão simplista da realidade. Claro que essa tem sido a forma do Governo Cubano justificar suas deficiências, mas uma analise realista e imparcial nos permite ver como, além dos problemas do socialismo já vistos, os graves erros econômicos comprometeram desde o inicio a economia do país.
Comecei a refletir profundamente nesta idéia o dia em que como jornalista me deparei com dados históricos sobre a produção de cana de açúcar, que continua sendo a principal indústria do país e a mais importante fonte de ingressos, pois Cuba é o primeiro país exportador de açúcar do mundo. Em 1926 o país contava 12 usinas para a fabricação de açúcar, sendo que o corte e a coleta eram manuais, a transportação em carretas de boi e as maquinarias bem atrasadas. No próprio ano um intenso furacão atravessou a ilha de norte a sul e de leste a oeste, causando enormes prejuízos. Mesmo assim, o volume da produção alcançou os quatro milhões de toneladas de açúcar. Hoje o país conta com 362 usinas com alta tecnologia; mais do 70% do corte, a coleta e a transportação estão mecanizadas e sem acontecer um fenômeno meteorológico similar resulta difícil superar a produção de oitenta anos atrás. Só no ano 1970, com o país quase paralisado com todos os recursos e forças produtivas em função da safra se conseguiu duplicar a produção, mas mesmo assim foi um fracasso no sentido que nem assim se obteve a meta proposta pelo Partido de dez milhões de toneladas. A façanha jamais se repetiu. Este exemplo da principal indústria vasta para dar uma medida do grau do estancamento em que está sumida a economia cubana.
A economia cubana estava sustentada pela indústria açucareira. O resto da produção agrícola era em pequena escala e sustentada em sua grande maioria pelos campesinos com pequenas e médias plantações. A lei de Reforma Agrária, assinada no primeiro ano da revolução acabou com os grandes latifúndios e as enormes desigualdades sociais na distribuição das terras, mas também afetou a esses produtores médios que garantiam o comércio. A velha estrutura agrária dos latifúndios intervindos pela Revolução foi substituída pelas granjas estaduais administradas pelo Governo e a produção individual foi permitida só em pequenas parcelas de terras segundo a nova distribuição. Na frente dessas novas estruturas produtivas, seguindo a política geral do Governo, foram colocadas pessoas de confiança, mesmo sem os conhecimentos nem a preparação necessária, cuja incapacidade se revertia em enormes erros que comprometiam seriamente a produção. Por outro lado a Campanha de Alfabetização realizada também entre os anos sessenta e sessenta e um abriu as portas para que muitas pessoas adquirissem conhecimentos para melhorar a vida e abandonaram o campo, porque também o Estado ofereceu novas oportunidades de emprego, mas a força de trabalho agrícola ficou debilitada. Então o Governo optou por substituir o trabalho profissional pela mão de obra voluntária, o que foi outro fator que atrasou grandemente a produção agrícola. Os trabalhadores agrícolas permanentes recebiam salários fixos, mas não cumprindo seus índices produtivos se recorria à força voluntária para alcançar os objetivos propostos.
Em certa ocasião meu sogro, que era um campesino médio cujas terras foram reduzidas, me comentou a diferencia existente entre o pequeno produtor e a empresa estadual na plantação do tabaco, da qual ele era um especialista. Então me diz que esse cultivo era muito delicado e podia se arruinar por exemplo com uma forte névoa, a qual traz por conseqüência a proliferação de pragas. Quando isto acontecia, ele acordava a qualquer hora da madrugada e ia a cobrir a plantação com tela de mosquiteiro, porque era seu dinheiro o que estava em jogo. Mas o administrador da granja, que tinha um salário fixo entregue pelo Governo, produzindo ou não, com certeza deixaria para o dia seguinte a toma de uma medida para resolver o problema, porque o estímulo moral não era suficiente para tirá-lo da cama pela madrugada. E estava certo. Foi esse precisamente um dos pontos discordantes entre Fidel Castro e Ernesto Guevara, quem defendia a conjugação do estímulo moral com o material.
Mas o Che defendia também a necessidade de industrializar o país, de maneira que não fosse tão dependente da produção agrícola, coisa que se fez de forma muito modesta e com fatídicos desatinos. Um exemplo foi, a compra de fábricas de tecidos, quando o país não tinha uma produção de algodão que garantisse a matéria prima. Outro foi, a compra na Argentina de 12 fábricas de pão a um alto custo. Conheci o caso pessoalmente pois fiz um documentário sobre o tema que foi proibido de sair ao ar por conter uma forte crítica ao Governo.
Das referidas fábricas uma foi montada de forma experimental no reparto Antonio Guiteras no município de Guanabacoa. Depois de repetidas experiências para produzir um pão de qualidade chegaram a conclusão de que o pão produzido era incomparavelmente inferior ao produzido de forma tradicional nas pequenas padarias. O resto das estruturas e maquinarias, algumas em terrenos contíguos e outras ainda no porto foram abandonadas e depredadas, ou corroídas pelas inclemências do tempo.
Outro exemplo contundente dos lamentáveis erros cometidos na economia foi o complexo agro-industrial projetado para realizar na província de Camagüey, sobre o qual também um colega meu fez um programa para a televisão que tampouco foi permitido transmitir. Tratava-se do denominado Triângulo Leiteiro, previsto segundo cálculos iniciais para satisfazer as necessidades internas e empreender a exportação de produtos lácteos. O máximo líder da Revolução chegou a dizer que o país se converteria numa potência mundial nesta área, ao nível dos melhores produtores do mundo. Para isso se compraram os melhores exemplares reprodutores do gado na Suíça e na Holanda, dedicando enormes recursos técnicos para obter mutações genéticas capazes de permitir uma eficiente e rápida reprodução dos melhores bovinos para garantir a produção. Uma vaca que chamaram de Ubre Branca e era a criança mimada de Fidel, chegou a produzir até 112 litros de leite por dia. A colocaram num estábulo de luxo com ar condicionado e música indireta. Então se destinou um gigantesco orçamento para a construção da infra-estrutura necessária. Preparação de terras para pastoreio intensivo e extensivo, edificação das bases das futuras industrias de tratamento do leite e elaboração dos derivados, compra de equipamentos, etc. Quando nossa equipe aprofundou nas investigações para filmar o material, descobriu que todo tinha sido um engano e que o enorme projeto praticamente não existia e estava destinado ao fracasso. Nunca mais se falou disso e Ubre Branca está dissecada num museu.
Outro fato contundente que demonstra como uma boa parte da culpa da situação da economia depende dos enormes erros cometidos é o que se chamou Cordão da Habana. Tratava-se de um projeto para plantar enormes áreas com café e eucalipto em volta da capital, formando um cordão. A idéia desde o inicio foi rejeitada pelos especialistas, mas mesmo assim se empregaram enormes forças para cumprir a tarefa encomendada pelo máximo líder da Revolução. Era uma obra difícil pois as árvores frutíferas deveriam ser plantadas numa região pedregosa onde era necessário utilizar cavadeiras potentes para quebrar as rochas. A mobilização massiva de voluntários para esta atividade durou mais de um ano, deixando-se para o lado outras atividades importantes. Depois de tantos recursos e esforços jogados fora ninguém coletou um grão de café nem um pedaço de madeira ou resina para a produção de papel.
Mas na própria agricultura se observam outros casos de auto-estrangulamento da economia por decisões mal tomadas. Uma delas foi a de uniformizar a produção de banana com a intenção de mecanizar a produção. Foi o caso em que o Governo decidiu implantar a tecnologia Microyet para este cultivo. Isto implicava a seleção de uma espécie do fruto que se adaptara a este tipo de produção. Então no país se plantou só essa variedade, descartando o resto das vinte e seis existentes na ilha, ricas por seus nutrientes. Mas nem assim se conseguiu garantir uma coleta capaz de regularizar a oferta do produto a população. As bananas sumiram do mercado.
Porque um fato decisivo no fracasso da economia cubana é a concentração de poder em um só homem, um ser egocêntrico e megalomaníaco até limites incalculáveis. Suas idéias e caprichos foram impostos sempre como a lei suprema a qual ninguém se podia opor, a não ser arriscando até sua própria integridade. Qualquer frase, qualquer critério, acertado ou não, virava um mandato inapelável. Mas o pior é que isto acontece até hoje em todas as esferas da sociedade sem exceção, tem que ser feito o que ele entende, mesmo existindo opiniões autorizadas contrárias. Recalco a idéia porque este fato vai aparecer como uma constante na análise do processo revolucionário, como uma particularidade determinante no balanço geral da situação do país hoje. (continua)
Escrito por alexei.pierre às 21h12
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Conto Se foi embora
SE FOI EMBORA
Conto para concurso
AUTOR: Pierre
Uma das coisas que caracterizam o céu carioca, sobre tudo durante as épocas de férias escolares, é a infinidade de pipas que cobrem o espaço entre trinta e cinqüenta metros da terra e imprimem à paisagem, com as suas danças laterais e o múltiplo colorido, um ar de alegria e festividade. Quando unimos vários num mesmo campo visual, elas desenham as mais variadas figuras cinéticas que despertam o interesse até dos menos adeptos a este tipo de distração.
Lamentavelmente hoje as pipas perderam muito em variedade, sendo difícil encontrar um coronel ou outra forma das que antigamente fabricavam-se. Lembro-me que o tipo mais comum entre os meninos bem pobres era a “chiringa”, que se fazia só com uma folha de papel pregado, sem as travessas de madeira, e puxada por uma linha de costura que pegavam da gaveta da mãe ou da avó. Hoje o desenho reduziu-se a um só tipo, talvez por ser o mais econômico e que empina melhor, e os tamanhos variam pouco. Será que a pipa converteu-se em outra mercadoria estandardizada do mundo globalizado? Por sorte conservam o colorido vivo, com matizes puros característicos de uma cultura influenciada pela luminosidade cromática que produz a intensa força de um sol sempre radiante. No sul existe ainda a pandorga, maior e só para colocar no ar, e pode ser bomba, estrela, caixas ou de outros tipos. Em Niterói existe a califa, também conhecida como raia, que não tem rabiola. Bandeiras do Brasil ou das equipes de futebol, personagens dos desenhos animados mais famosos – já nada brasileiros – e outros temas são alegorias que cobrem a superfície de papel daquelas simples estruturas que dançam mais lentas ou dinâmicas, segundo a vontade e a resistência de seus donos temporais, pois a pipa, para sorte de seus fabricantes, e o prejuízo do bolso dos pais, tem uma vida efêmera. Houve um tempo em que até mandavam-se mensagens nas pipas, colocando na linha um pequeno pedaço de papel com um buraquinho no meio e este ia subindo, subindo até chegar lá encima. Em outros lugares eram utilizadas para levar a linha de pescar até o ponto desejado, onde a profundidade da água era maior. Depois se começaram a inventar artifícios para cortar uns aos outros, como as lâminas de barbear, vidro moído e outros menos perigosos como o cerol com vidro moído.
Longe de ser uma brincadeira de crianças, soltar pipa, é aqui um entretenimento de todas as idades. Alguns pais começam ajudando aos filhos para levantar aquela leve estrutura de varinhas de madeira e papel e acabam passando horas embaixo do sol, brincando, gritando e até brigando toda vez que uma linha é cortada por outra e a pipa vai-se embora. Porque agora a maior diversão e alegria da brincadeira é quando isto acontece, e o mais rápido e astuto apodera-se da pipa, retornando triunfante com a presa em alto. Claro que a inocente distração pode trazer certas complicações, algumas das quais podem ser perigosas. A mais comum é quando o que perdeu a pipa não fica conformado e sai a recuperá-la, o que não poucas vezes termina numa rinha que em ocasiões transcende o âmbito dos menores. Outra situação complicada se produz quando a pipa que foi cortada vai parar numa antena, numa árvore ou no teto da casa de um vizinho, o que geralmente provoca que este se incomode com os métodos e a persistência dos menores para recuperar o objeto voador. Porque o hábito mais comum é lançar pedras amarradas a uma linha, o que pode – e de fato acontece – quebrar o vidro de uma janela, ou quando no mínimo o dano é levantar um galo na cabeça de quem esteja distraído andando pelo lugar. Comumente ocorre que se enredam nos fios do tendido elétrico e aqui as formas de pegá-lo são de maior risco. Uma delas é amarrar os cadarços dos tênis e jogá-los na linha entre a pipa e o fio que às vezes é de alta tensão. Em outras oportunidades trata-se de tendidos velhos que terminam arrebentando, podendo provocar um acidente maior, ou no melhor dos casos a interrupção do fluido elétrico por um bom tempo. Outro momento de alto risco se produz no instante mesmo em que se corta a linha da pipa e este empreende seus vôos livres, tranqüilos e harmoniosos, sem as marras pelas que lhe dão as violentas sacudidas e se deixa levar pelas carícias dos ventos. É ali em que todos, sem exceção, sem pensar em nada nem mirar para ambos lados da rua como a prudência aconselha, saem disparados na provável direção de destino. Quase sempre correm descalços, pulam altos muros, jogam-se de coberturas e lajes e atravessam-se diante dos carros que muitas vezes não respeitam a velocidade permitida nas zonas residenciais.
De qualquer forma brincar de pipa é uma diversão irresistível, sobre tudo nos bairros mais pobres, onde não existem mais opções para empregar o tempo livre nessa idade indefinida dos pipeiros, que passa pela infância, segue na adolescência e parece não terminar nunca. Porque se uma coisa linda produzem as pipas é o sentimento de alegria, de realização dos sonhos, que experimenta uma criança quando sente entre seus dedos a fina corda que o separa daquele simples objeto que sobe como animado, querendo alcançar o céu com suas nuvens e estrelas, ficando diminuto com a distância na imensidade celestial. Mais esta sensação parece que não termina com o passar dos anos. Para muitas mães constitui um alivio, na medida em que seus filhos entregam-se dia a dia e a toda hora a esta atividade, escapando assim das tentações perante formas ilícitas e perigosas de empregar o tempo. Outras reclamam de que as crianças não querem nem trazer o pão, tomar banho ou ingerir alimentos.
Brincar de pipa dentro de uma favela já requer de outras condições físicas e mentais, como de certa vocação felina para pular entre as irregulares coberturas a diferentes alturas, salvar paredes sem terminar, muros e colunas com os vergalhões de fora, e falta de espaço geral, entre outras inconveniências. Isto é sem contar que as instalações elétricas conformam verdadeiras enredadeiras de precários fios que só um mago saberia de onde vem e para onde vão. Talvez por isso a modalidade mais cômoda, de menos risco para quem a pratica, e mais tentadora por ser proibida, seja soltar o balão de fogo, digamos uma variante propulsada da clássica pipa. Mesmo assim, como a rádio não foi eliminada pela televisão, a pipa correu a mesma sorte e continua proporcionando alguns centavos de ganância aos que unem a paciência com habilidade manual para armar aqueles milenares engenhos chineses, de cuja fanática manipulação não escapa nenhuma criança.
Era com uma enorme frustração que Miguel, tímido mulatinho de seis anos, via todos os dias a seus dois irmãos maiores e a seus colegas passar as horas correndo sobre as lajes detrás das pipas que iam embora. Só houve um dia em que um deles, que por casualidade estava sozinho nesse momento, e pediu para que o ajudasse, caminhando uns metros a sua frente com a pipa em alto e a soltasse para ele colocá-la a voar. Também, por padecer Miguel de bronquite crônica, a mãe o mantinha mais dentro de casa, sobre tudo nos momentos em que ela saía a realizar alguma compra, pois seu marido pedreiro só voltava pela noite. Quando isto último ocorria, então ele aproveitava para correr pelos corredores, brincar de bolas de gude com seus colegas, ou fazer alguma travessura como esconder a vassoura de uma vizinha, sujar a roupa do varal ou amarrar uma lata no rabo de um gato.
Essa manhã seus objetivos eram outros. No dia anterior havia escutado quando os irmãos combinaram para ir a jogar futebol, o que significava que eles permaneceriam um bom tempo fora de casa. Por sua parte Rita, a sua mãe, tinha reservado turno para a manicura, porque mesmo pobre era uma linda e orgulhosa mulata que não descuidava o seu aspecto físico. De forma que Miguel elaborou um plano perfeito para realizar seu sonho: soltar pipa.
Com a maior cautela possível esperou a que todos saíssem, fazendo-se de dormido. Depois não quis nem tomar café com pão e manteiga que a mãe, preocupada com que os outros comessem tudo, deixou preparado para ele, e escondeu no lugar combinado. Quando a porta fechou-se por última vez espiou pela janela e ao ver que estava livre se dispôs a preparar as coisas, esquecendo-se até de lavar o rosto e escovar os dentes. Das três pipas que os irmãos tinham deixado cuidadosamente penduradas na parede, tomou a que tinha o desenho do homem aranha, ídolo das crianças sobre tudo pela forma em que realiza suas piruetas pelas paredes e telhados dos altos edifícios newyorkinos. A pipa estava completa, com suficiente rabo e uma grande quantidade de linha enrolada em uma lata vazia de leite em pó que lhe permitiria elevar a mais de duzentos metros e talvez, por que não, cortar alguma outra que estivesse no ar. Sem pensar duas vezes saiu pela porta da cozinha e subiu pela janela do banheiro até o teto, como habitualmente faziam seus irmãos. Uma vez lá ficou um pouco pensativo, pois não considerou o lugar apropriado, já que as duas casas vizinhas eram mais altas. Finalmente decidiu subir por um cano de esgoto ao teto de uma delas, que estava em construção. Agora sim estava no lugar certo, pelo que sorriu levemente e completou sua expressão de alegria quando sentiu o vento soprar forte naquela linda manhã de sol radiante. Não precisou ajuda para colocar a pipa no ar. Só desenredou o rabo, soltou um pouco de linha e como num simples ato de magia a pipa foi subindo, subindo até consumir toda a linha. Bailava no céu como nenhum outro, com a arrogância do rei dos ventos, com ar do príncipe de uma linda fábula, com a serenidade de um astro bem próximo das nuvens. Miguel era feliz. Estava realizando seu mais prezado sonho. Não queria nem movimentar muito a linha de um lado para outro para cambiar a direção dela. Só queria vê-la voar, no entanto mantinha em suas miúdas mãos a linha que o fazia se sentir seu dono, mesmo que fosse por uns momentos. Duas curtas lágrimas de alegria e emoção correram por suas bochechas, e no lindo rosto se esboçava um amplo e esplêndido sorriso infantil. Tinha vontade de gritar, de chamar a seus amigos, de mostrar o seu heroísmo, mais preferiu calar e desfrutar sozinho aquele momento de tanta euforia, no qual talvez as palavras não tivessem saído de seus lábios. E a pipa voava, com a sua rítmica e silenciosa dança ao compasso do vento, com a harmonia que só a natureza sabe imprimir a esse fenômeno de rotina. Sem percebê-lo outra pipa foi ficando mais perto por detrás dele e quando menos o pensava o rabo do cruel invasor interceptou a linha do seu, fazendo com que a pipa fosse embora.
Primeiro foi à carga de ódio, de raiva, ao compreender o ocorrido. Em frações de segundo apareceu a segunda reação: correr atrás dela. Só deu três compridos passos sobre a laje e esta chegou ao fim. Miguel não teve tempo de gritar. Três horas depois os vizinhos acharam o pequeno corpo atravessado por um vergalhão que saía de uma coluna a seis metros de onde ele caiu.
Escrito por alexei.pierre às 07h49
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Contato
Para saber mais sobre o meu livro Os Ratos do Casarão ou comprar pode escrever também para alexei.pierre@gmail.com. Aguardo seu contato
Escrito por alexei.pierre às 19h09
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NOVO ROMANCE SOBRE A LAPA
Os Ratos do Casarão é o meu novo romance sobre a Lapa, baseados na história e na vida real do bairro desde 1930 até os nossos dias. Nele vai encontrar tudo: amor, odio, crime, violencia, corrupção. Muitas personagens ainda estão vivos e andam pelas ruas da Lapa. Não perca
Escrito por alexei.pierre às 19h04
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